Filhos em férias escolares: e agora? Entrevista com psicólogo e Gestalt-terapeuta Enéas Lara

21 de julho de 2017



Julho é mês de férias escolares e, junto com elas, surge a dúvida dos pais: o que fazer com os filhos neste período? Muitos programam viagens, outros preferem acampamentos ou colônia de férias, mas, na maioria das vezes, sempre há um “super roteiro” com as crianças. Hoje em dia, com o avanço da tecnologia e diversões para todos os gostos e bolsos, fica até difícil escolher.

Embora a diversão também seja importante durante o período de descanso das aulas, segundo o psicólogo e Gestalt-terapeuta Enéas Lara, o que mais importa neste momento é o que se pode oferecer de memória afetiva e experiências positivas. 

“Quando a criança entra em contato com aquilo que experimenta, sendo positivo, desdobra em sentimentos de felicidade, amor e ajuda na construção da personalidade do ser humano. O valor de um sorvete, por exemplo, precisa ser restrito à experiência unicamente do sorvete, com sua cor e sabor. Quando tomar o sorvete, é ‘empoderado’ pela experiência de ser em Paris, ainda que seja uma experiência rica, sorvete é sorvete e Paris é Paris”, enfatizou.

Ainda de acordo com o psicólogo, na era em que o “reinado dos filhos” dita programações, economias e o tempo dos pais, é preciso haver um consenso.

 “É importante saber sobre as demandas das crianças e as possibilidades dos pais. Para isso, a primeira regra é ter o pé no chão. Os pais devem se perguntar “O que pode a família para esse momento?”, que é bem diferente do que quer a criança para as suas férias ou como é que nós, pais, faremos para que o tempo livre dos nossos filhos sejam inesquecíveis e os mais divertidos da sua vida, sem considerar o bolso, a disponibilidade de tempo e as demandas do grupo familiar como um todo”, destacou.

Enéas Lara explica que os pais conseguem promover algo saudável para os filhos quando consideram a oferta de experiências, sejam elas físicas – corridas, frutas, sonos diferenciados como em uma noite do pijama –, afetivas – vivenciar a brincadeira com um cachorro, admiração por algum animal doméstico, cultivo de plantas e os detalhes das flores –, racionais, incluindo aprendizado – museus, prédios ícones da arquitetura de um local, praças e feiras que ofereçam aquisição de conhecimento – e sociais – diferentes grupos de identificação, vizinhos, frequentadores de um parque, igreja, entre outros.

- “Vale investir em experiências que promovam o crescimento e aquisição de valores que contribuam na formação do caráter da criança”, ressaltou o psicólogo.

Pode acontecer também de os pais estarem trabalhando e os filhos de férias. Caso isto ocorra, não há que se culpar. 


- “A realidade de cada um é importante. Há sempre um tempo no período da noite para um filme juntos, uma pipoca, um passeio de bicicleta e leitura de livros. São tantas as possibilidades, desde jogos de tabuleiros, atividades manuais, a envolvimento na construção de algo para comer e tudo aquilo que possa enriquecer a vida da criança. O planejamento de férias de uma criança sempre requer o acompanhamento, elaboração e envolvimento do adulto, para que a ela possa ser oferecido diversão, mas também segurança”, reforçou Enéas.

Caso o filho tenha ficado de recuperação na escola, ele deve entender que é importante cumprir a pendência, mantendo o foco de realização naquilo que precisa ser feito.

- “Haverá tempo para brincar e se divertir e haverá horário reservado para sanar aquilo que ficou pendente. A construção dessa rotina, de forma saudável, evita, por exemplo, ensinar o filho a procrastinar uma atividade a qual ele precisa se atualizar”, disse o psicólogo.

Para alguns pais e filhos, o período de férias é sinônimo de “deixar de lado a rotina”, sem hora para acordar, para ver televisão, para jogar vídeo game, e isto pode não ser saudável e dificultar o retorno às aulas.

 “A rotina de ir para a escola é alterada pelo próprio período de férias, mas o sol levanta e se põe na mesma hora. É claro que não estamos falando de algo rígido. Um dia pode ter um cinema até mais tarde ou um almoço pode ser em um lugar diferente. O que não pode é criar uma desconstrução das rotinas que, pouco depois, quando as aulas voltarem, produza um problema na família, com atrasos para ir para escola, sono durante a aula e baixa prontidão mental, pouca energia e falta de foco. A criança só está em intervalo de aulas. Tudo, incluindo férias, deve cooperar para que nada interfira no seu direito ao conhecimento e a volta à sua rotina escolar”, pontuou Enéas Lara.

Letícia Passos

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