Orlando Eller: Amocim Leite

13 de janeiro de 2017
Crônica de Eller relembra personagem da política de São Mateus, Norte do ES






Idos tempos de 1990, meses poucos após conturbada eleição em São Mateus, em que ameaçou recorrer às carabinas e se entrincheirar se não lhe garantissem a posse por direito conferido por votos, o prefeito Amocim Leite retornava de Brasília, paparicado por alguns assessores.

Era uma sexta-feira. No Tom Jobim, embarcamos para Vitória em um velho jato da então (e hoje extinta) Transbrasil, às 17 e meia. 

Uma chuva fina que caía insistente comprometia a visibilidade, que era precária. Sequer se via o céu por onde em instantes estaríamos navegando.

A aeromoça rezou as regras. 

E, então, o avião taxiou, taxiou e, a plenas turbinas, disparou para decolar. Prestes a desgrudar seu rodeiro da pista, rodopiou de súbito uma, duas, três vezes como um pião desembestado para se atolar nos gramados à margem da pista, com o trem de pouso avariado.

Em instantes, bombeiros, ambulâncias, polícia e Infraero, emitindo suas luzes de emergência, rodearam o avião para socorro. Em parte, pousos e decolagens foram interrompidos. Em minutos, todos nós, munidos de cara de coitados em pose de defuntos, fomos recolhidos.

O prefeito Amocim Leite, que assumira o cargo prometendo empunhar carabinas se necessário fosse, estava hirto e mudo, quase catatônico. O suor que brotava da face dele tornou-lhe a negritude ainda mais brilhante. Fomos recolhidos e devolvidos ao aeroporto.

Só à uma da manhã, depois de submetidos como reféns de um silêncio, coisas de um não-sei, e da falta de informações, fomos embarcados em outro avião da mesma empresa, que chegara de Brasília para descansar no Rio.

Ansioso como diabo sem inferno, o prefeito ia e vinha pelo corredor do avião, para lá e para cá; e seus olhares denunciavam inusitado medo do desconhecido, embalado pela desesperança, coisa de última hora de uma vida merecida que estava a ponto de se esvair.

A ninguém ele olhava. Esquivava-se da bela aeromoça, que insistia em colocá-lo na poltrona. Quando, finalmente, ela o conseguiu, travou-se então um novo duelo, já que em alto e bom tom Amocim determinou:

─ Assentado sim, amarrado não!

O carinho da aeromoça, a curiosidade dos passageiros e as gargalhadas de seus assessores, enfim, o puseram de cinto, só que em poltrona que ele mesmo escolheu. Então, houve palmas efusivas.

Quem foi Amocim

Amocim Leite foi um político de São Mateus (ES). Exerceu mandatos de 
vereador em duas legislaturas, nas décadas de 1950 e 1960. E cumpriu três mandatos como prefeito nas décadas subsequentes (1972, 1983 e 1993). 

Negro e semi-analfabeto, enfrentou forte preconceito. Em sua gestão, asfaltou as primeiras ruas no centro da cidade, melhorou a iluminação pública, construiu o primeiro pronto-socorro e restaurou o casario do centro histórico do porto. 

Sua candidatura para o terceiro mandato para prefeito (em 1992) foi cassada pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE). A poucos dias da eleição, liminar lhe permitiu disputar e a eleição lhe foi amplamente favorável. 

O TRE decidiu então anular o resultado do pleito, diplomando como prefeito Wallas Batista de Oliveira, desafeto de Amocim. Dias antes da posse, com apoio de variados segmentos sociais, populares armados de revólveres, carabinas e bombas de fabricação caseira invadiram a Prefeitura e exigiram a posse do eleito. E assim se fez.






Orlando Eller
Jornalista

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