A proposta ‘musiquês’ de Sérgio Benevenuto na música: por Magali Lima - Século Diário tá dando

18 de abril de 2016
Foto: Leonardo Sá/Porã
16/04/2016

👤Magalli Lima

Centrado e atento em seu home studio na Praia do Canto, em Vitória, o produtor, instrumentista, arranjador e compositor Sérgio Benevenuto pode passar horas conversando sobre canções, produção, arranjos, projetos e tudo o que envolva o mundo em que ele está inserido, a música. Sérgio é um desses veteranos, com muitos anos de experiência na profissão em que está. Viajado, ele lembra exatamente de todas as grandes e pequenas escolas de música brasileiras por onde passou, até finalmente se encontrar na Berklee College of Music, em Boston, nos Estados Unidos.

As viagens continuam quando ele participa de mesas de discussão e seminários. Contudo, o produtor já está fixo em Vitória há cerca de dez anos, vivendo de aulas particulares de música, produção de álbuns e idealização de projetos - muitos deles, inclusive, uma banda de rock que ainda está para ser lançada munida de álbuns, videoclipes e muitas propostas por trás dela. Mas antes deste lançamento, muito bem guardado estrategicamente por Sérgio, que está "esperando a hora certa de lançar", ele faz na próxima quarta-feira (20) o lançamento do box Shaking Planets.

O box concentra o fechamento de um trabalho iniciado em 2007 com o álbum Onde Andará Ruff Cutz?, de músicas instrumentais. E esse é o campo principal de atuação de Sérgio, o instrumental. Em 2011 ele lança o segundo álbum de mesmo conceito, Lo. E agora é a época de fechar esse trabalho com o lançamento de Cangaço Cyber, que fecha o box.

Nos dois primeiros álbuns, o conceito trabalhado por Sérgio foi fazer canções instrumentais que trabalhassem a mistura de grooves com timbres modernos, porém, tudo sendo estritamente tocado por músicos, sem nada advindo das máquinas e programas tecnológicos. No terceiro álbum, Sergio faz o contrário e assume-se como o "dj", realizando as programações das baterias e percussões, partindo de um tema, o Cangaço, "mas sem se comprometer com o regionalismo", frisa ele.


Foto: Leonardo Sá/Porã

E, sim, Shaking Planets diz muito sobre Benevenuto. É neste trabalho que está concentrado o tipo de música e a forma de trabalho em que o veterano acredita, que é a construção musical feita a partir do ‘musiquês’ – termo usado para definir a música criada a partir da técnica. 

- “Em ‘musiquês’ estamos falando de técnica, de prática; e não do ‘filosofês’, que se baseia na filosofia do modo de fazer música sem a estrita prática, como algo que saí mais filosofado do que pensado”, explica ele, que não deixa de pontuar que gosta até desse tal de ‘filosofês’ também, mas se encontra mesmo no ‘musiquês’ – conhecido por nós como o know-how.

E é exatamente por esse discurso sobre o know-how que Sérgio é constantemente mal interpretado na imprensa e por alguns músicos, ele lembra. Benevenuto acredita que o estudo da música é imprescindível para a criação da mesma. A técnica e o processo de produção centrado na figura do produtor musical são essenciais para a criação de boas canções e álbuns. 

Dessa forma, Benevenuto se mostra de certa forma saudoso à época das gravadoras, em que o dinheiro era investido no músico no intuito de oferecer produção, arranjadores, músicos e todo o aparato técnico de grande qualidade - "prática que é cada vez mais restrita nos dias de hoje, restando o investimento privado e os editais públicos, onde a verba nunca é suficiente para bancar toda a equipe necessária que precisa estar ‘por trás’ da criação", lembra.

Muito desse impasse atual, aliado à falta de know-how e pouco investimento do governo em seus músicos, se deve ao tipo de educação musical que o Brasil sempre apostou, acredita Sérgio. “Nossas escolas de música hoje geram quase um genocídio cultural. Quem entra nelas chega com muita expectativa. Quando o aluno chega no terceiro ano e começa a ver que não aprendeu nada de técnica, só aprendeu a ler partitura bem mal, ele começa a duvidar dele mesmo.

E o que acontece é geralmente um êxodo do terceiro ano para frente. E o que é mais criminoso é que o aluno sai dessas escolas com o raciocínio de que não tem talento. Ele não percebe que está sendo vítima de um sistema horroroso de falta de qualidade técnica”.

Para Sérgio, falta muito do ‘musiquês’ nas escolas de música do Brasil, o que compromete a formação de muitos músicos. “No Rio de Janeiro e em São Paulo você ainda tem uma opção de certo ‘musiquês’. Mas aqui em Vitória, não. Então o músico daqui se formou tirando frases de discos. Ele não conhece harmonia. Ninguém se preocupou em criação. Ser hábil de tirar coisas de discos é fácil, mas e a criação?”, pondera.

Apesar da crítica, ele mostra lembrar de cada aluno seu que conseguiu ultrapassar a barreira das escolas de música nacionais. Além disso, Sérgio acredita também na insistência do trabalho e segue bem atento ao cenário musical nacional de hoje, incluindo, claro, o Espírito Santo.


(Foto de reunião de Sergio e nova safra de autores, músicos, para o Portal DOPC)

- “Hoje existe uma geração autoral no Estado que eu nunca vi na história do Espírito Santo. Uma geração com identidade. Mas o problema é que a imprensa nem vê. Ela se dissociou do mundo musical daqui após aquela fase de referência do Casaca, de forma que nem percebe que tem uma geração nunca vista nascendo e com uma qualidade ímpar, como Fernando Zorzal, Fepaschoal, Silva, Tiago Perovano, André Prando, Fabrício Oliveira, e muitos outros”, destaca.

E Sérgio fala de cada um dos cantores detalhando potenciais, como se fossem por vezes até filhos. A aproximação com esses músicos da nova geração se dá quando o produtor tem a oportunidade de produzí-los ou dar aulas, promovendo em seu próprio apartamento o que ele chama de Woodspocket (em referência ao festival de Woodstock), uma pequena reunião desses músicos tocando juntos em sua sala de estar, bebendo e conversando.

Projetos para alvancar a música local em dez anos não faltam para Sérgio. Ele conta já ter sido chamado pelo curso de música da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) para a criação de uma escola musical que não deu certo. Fala também dos projetos musicais que a Lei de Incentivo Cultural Rubem Braga, da cidade de Vitória, poderia reaver e restruturar. Planos são o que não faltam para Sérgio que, enquanto participa de mesas e debates sobre os tantos assuntos e impasses que envolvem o seu universo, continua firme em seu home studio produzindo e criando.

Serviço

O lançamento do Box Shaking Planets – The Music Of Sérgio Benevenuto será realizado na próxima quarta-feira (20), a partir das 20h, no Jardim Secreto - rua Moacyr Avidos, 47, Praia do Canto, Vitória/ES. A entrada é livre.

Copigarfado do Século Diário
Fonte:
http://www.seculodiario.com.br/28258/17/a-proposta-ijmusiquesij-de-sergio-benevenuto-na-musica

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