Cláudio Lachini: As sereias de Guarapari

8 de janeiro de 2016
Claudio Lachini anotou:

- "Encontrei essa 'preciosidade' inédita, escrita em Guarapari perto do Natal de 1998".

Conto: As sereias de Guarapari
Publicado no Portal DOPC / Rádio CBM em7 de setembro de 2013


Já estive aqui antes e juro que vi, nadando perto do monstro da enseada da praia das Areias Pretas, duas sereias, uma clara, outra morena. Não foi uma visão extraterrestre, dessas que se tem somente por um instante. Vieram nadando calmamente, conversando, mas não consegui distinguir o que diziam. Só bem mais tarde me foi dada a iniciação em seus mistérios. Eram bonitas, maduras como devem ser as sereias, que não são aparentadas das ninfas. Não sei se todas são assim – eram, as minhas sereias, balzaqueanas. Só depois entendi que, mesmo as mais jovens, tem esse ar inconfundível de Madame Bovary.

As sereias fazem justiça ao enunciado segundo o qual muitos aprenderam a enganar por medo de serem enganados. Não há registro da primeira que foi enganada, mas inteligentes como sempre foram, logo se utilizaram do encantamento da face, do canto e do espírito para envolver os heróis mais afoitos, como Ulisses. Não invoco essa condição mas posso garantir que quase fui encantado pela morena, que com artes e manhas, deitou-se na areia com o traseiro voltado para mim. Em lugar de rabo, tinha bunda; em lugar de escamas, tinha estrias. "Sereia da Coca-Cola e do hamburger", pensei.

Um raio subiu do Oceano no horizonte, direção sul, onde está o embarcadouro de minério de ferro de Ubú. Estremeci e ouvi, mentalmente, a resposta à minha conclusão: "Já não somos as mesmas. Os dejetos humanos aceleram a derisão dos tempos; nossas harpas, do mais puro som, hoje tocam como porrinholas; nossas vozes estão roucas e másculas como a Dietrich por causa do fumo fabril; nosso espírito se materializa em pele escamosa e sem a mesma lisura, e não há Douglas Puppin que arrume".

Pobres sereias, por quanto tempo conservarão o poder de encantar? Vou pedir ao Gustavo Krause que as ajude junto ao Ibama. De poderes sereníficos, Krause tem a simpatia da classe, dessas que iludiram o rabo-de-peixe. Perguntei a Dafne, a minha interlocutora de rabo empinado e humano, quando e como isso ocorreu. "Foi obra e desgraça do jornalista Curzio Malaparte, aquele escritor de 'A Pele', que serviu uma filhote ao comandante norte-americano durante a ocupação de Nápoles, na invasão da II Guerra Mundial."

"Aquela era um peixe", disse. "Era sereia-nenem; é na puberdade que nos transformamos", esclareceu Dafne.

Minha curiosidade era imensa e queria saber como Dafne havia assumido a forma humana completa, já que eu vira perfeitamente as escamas, o rabo, as nadadeiras, as barbatanas de sua companheira clara. "Os deuses, indignados com a crueldade impensada dos antigos que serviam-nos filhotes como o escritor, deram-nos então o poder de nos travestir".

Esse poder extraordinário e igualmente perverso, contou, integrou o sistema de defesa da espécie. É um poder conquistado, exige muitos e longos exercícios, físicos e mentais, assemelhados à graduação da ioga tântrica. "Muitos homens que não respeitam o amor, morrem por nossa causa". À minha cara de ponto de interrogação, ela não teve prurido:

"Você já levou uma chave-do-amor?"

"Epa! Ela lê meus pensamentos", é óbvio, deduzi. "Quem já levou alguma, pode ter certeza, fez sexo com uma sereia. E isso nenhum homem nunca esquece. Muitos caem na devassidão porque procuram, procuram, procuram, e dificilmente encontram outra capaz de façanha de tamanho prazer", ou que tenha sofisticação suficiente para aplicar a contratura com tanto engenho e arte. Perdem-se os homens na busca do prazer, quando deveriam nele se encontrar. O prazer é natural, portanto é simples e instintivo. Praticar é instrutivo". Mas, de sacanagem, as sereias sabem tudo; do kama-sutra à cama redonda.

As sereias verdadeiras são poucas. A espécie está em extinção há milênios. Os japoneses são pescadores de sereias: cortam-lhes o rabo para fazer sushi. Não há nada mais afrodisíaco do que rabo-de-sereia; eles, os japoneses, evidentemente não contam o segredo para ninguém, nem para as japonesas. É dessas histórias que passam de pai para filho desde tempos imemoriais. E não adianta procurar sushi de sereia em restaurantes, nem em Tóquio, nem em São Paulo ou em Nova York. Simplesmente, eles não existem e os rabos só são servidos aos iniciados, em alguma casa de gueixa que não é revelada.

Fiquei besta. Dafne convidou-me para nadar com ela. Fui, em direção à ponta do Siribeira, onde outrora nossa geração buscava o refúgio da madrugada, casais clandestinos saídos do baile. Tinha mil perguntas a lhe fazer, tanta coisa para aprender; como diferenciar uma sereia de uma mulher só batendo o olho; que ambiente poderia sugerir ao Krause para uma procriação que ajudasse a preservar a espécie; era, enfim, a fonte da sabedoria.

Dafne mergulhou. Parecia-me ouvir Lilli Marlene na voz da Dietrich. Depois já era um dueto de I Lombardi alla Prima Crociata, de Verdi.. Foi quando vi o rabo-de-peixe, rabo da sereia clara, e então tive medo da lenda do encantamento. Nadei para a praia e subi imediatamente para casa. Muitas vezes, todo dia, olho da sacada para a enseada e, mais longe, para o mar Oceano. Fecho os olhos e sou capaz de sentir o dueto cantando: Noi siam corsi all’invito d’un pio,… terceiro verso da segunda cena do quarto ato da Primeira Cruzada . Digo para comigo: "Ao próximo chamado, atenderei". Os Coelhos da fábrica de pios de Cachoeiro do Itapemirim, que criaram pios para mil bichos, esqueceram-se dos pios de convidar sereias. Assim, fica difícil.

Serenado de espírito porque trespassado pela idade, faço amor com o prato. Assim degusto um badejo na moqueca sem a viadagem de lhe colocar camarões. Só tempero, como se faz com o esmero do litoral capixaba ou no Doce rio de minha infância, em Colatina, onde antigamente as sereias de água-doce davam, e fora d’água, como as piranhas amazônicas de Santarém. Os pecados da juventude pagam-se na velhice, disse-me Dafne.




Em Guarapari (ES)

na noite de 20 de dezembro de 1998.


Claudio Lachini
(1942 - 2016)

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