Orlando Eller: O cheiro do meu primeiro Natal

23 de dezembro de 2015
Porque é dezembro de novo, refaço minha caminhada até uma grota no outro lado da montanha, em que mora o velho Cassoli. 

Vou bem cedo, enquanto ainda há marcas de orvalho nas bordas do caminho. Descalço, como imperativo da minha infância, basta-me o velho facão e a gastada corda de sisal.

Alcanço a beirada do cafezal e deixo para trás as touceiras de banana prata. 

O chão está úmido. Ignoro a porteira à minha frente e subo o primeiro tope à direita, acompanhando a cerca viva de pinhão bravo que aparta a pastaria da lavoura. As juritis se assustam; os guaxos costuram os seus ninhos nos galhos do mata-pau solitário; os canários aninham e os coleiros catam sementes nos pendões do capim.

Vou impelido pela fantasia de curtir, armado na salinha lá de casa, um tannenbaum à moda alemã. E só há um sítio, o do velho Cassoli, em que posso ganhar um galho de pinheiro, galho de uma antiga araucária que resiste só, plantada a esmo tão longe do seu habitat.

Assim, pego o caminho morro acima. E vou em zigue e em zague, beirando o cafezal até alcançar a boca da mata fechada. Inhambus se espantam. 

Mutucas me orbitam e me povoam para sugar meu sangue.

Esmago entre os dedos as mais distraídas. Vazias ainda, estalam.  Passo a passo, sobre o tapete das folhas secas, evito as raízes que bulem meu andar; e vou me embrenhando na mata úmida.

De um lado, admiro o guaribu; de outro, o jequitibá. Já os conheço de outras passagens, entre muitos da melhor madeira de lei, a caminho da igrejinha luterana. Lá ainda ouço o culto, medito, aprendo o que é justo e ensaio hinos de louvor que cantarei à glória do Menino Jesus na noite do Natal.

Enfim, chego à clareira no cume da montanha. Abanco-me sobre um toco para ganhar fôlego. O sol, já alto e quente, não impede que as saúvas cortem e carreguem; acho que sôfregas, porque o mormaço do dia prenuncia chuva à noite. Então, as formigas antecipam a coleta de folhas tenras de um pé de mexerica.

Desço pela encosta íngreme, morro abaixo, até alcançar a porteira de varas de taboca, que dá para uma pastagem rala. Mais adiante, já à beira de um terreiro de secar café, bato palmas; e seu Cassoli surge da porta como se estivesse à minha espera. Segura uma caneca de café e pita um cigarro de palha. E me pergunta se eu quero um gole.

— Obrigado, seu Cassoli. Vim ver se o senhor me dá um galho daquele pinheiro como presente de Papai-Noel; minha mãe precisa fazer uma árvore de Natal. O senhor sabe como isso será importante pra nós...

— Por que não, meu filho? Pode tirar quantos galhos quiser...

— Vou amarrar uma pedra na ponta desta corda; jogo-a por cima de um galho. Depois dou um nó e puxo até que o galho quebre, como fiz da outra vez.

— Fique à vontade. Se precisar de ajuda me chame — disse ele. E foi até um pequeno curral em que prendera alguns cabritos. Encheu-lhes o cocho com água e deu-lhes alguns punhados de milho. Depois voltou para o interior da casa. E está em silêncio.

Eu tento uma vez, duas... E amarro a corda. Depois puxo, insisto e puxo de novo uma, duas, três vezes; e o galho do pinheiro dá um estalo, se parte e despenca ao chão sem se espatifar. Suas folhas verde-escuras são simples e espiraladas; têm a ponta em forma de espinho pungente, cuja picada pode doer. Mas delas brota um aroma relaxante, cheiro do meu primeiro Natal.

Quando eu chegar em casa, mamãe montará a árvore, enfeitando-a ramo a ramo, sob nossos alegres olhares. Enquanto a inconfundível essência irá tomando conta da sala, flocos de algodão imitarão a neve de que tanto falava vovó Anna. Soldadinhos de chumbo, a cavalo ou a pé, estarão enfileirados de novo sob o pinheirinho, portando fuzis com baionetas caladas.

Ao lado deles haverá pequenas bonecas e alguns livros infantis em rara 
ilustração colorida, e no mais puro alemão. Em uma das histórias que eu lerei de novo uma menininha doente clama pelo Doktor para que venha logo para consolá-la e lhe sarar as feridas.

Mamãe já terá assado pães e biscoitos. E minhas irmãs, com certeza, terão deixado a casa lavada e leve, um brinco. À tarde, farei faróis com gomos de bambu. Pavios de pano velho encharcados de querosene Jacaré iluminarão o nosso caminho de volta da igrejinha, na noite alta.

Lá cantaremos hinos de Natal, ensaiados com esmero, e recitaremos poesias, em nosso melhor jeito de louvar o Menino da esperança. No final da nossa apresentação, pequenos rostos iluminados por velinhas ardentes receberão como recompensa um pacotinho contendo uma porção de balas doces coloridas de anilina e biscoitos de maisena.

Como em Natais já idos, nos regozijaremos de novo; e voltaremos para casa na comunhão de muitos, caminhando pela trilha no meio da mata, por mais de uma hora. E chegaremos quase de madrugada, mas sem cansaço; e dormiremos serenamente por termos comemorado um fato extraordinário.

Bem cedo, dia seguinte, iremos todos novamente até a igrejinha para ouvir a mensagem da esperança. Depois, quase meio dia, tornaremos à casa e almoçaremos juntos. Com certeza, nosso almoço estará farto em carne de galinha ao molho, purê de aipim arara, arroz e verduras que mamãe colhe em sua própria horta.

Então, alimentados diremos: Obrigado, Senhor!





Orlando Eller

Dezembro de 2015

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Bertilio Romais

Fantástico! Como é bom recordar aqueles tempos de natal. Natal sempre foi a festa mais linda da minha vida. Minha infância foi colorida pelo Natal assim, creio, como foi a sua. Um grande abraço e vamos mais uma vez lembrar e comemorar o Natal, a festa das nossas lembranças.

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