Orlando Eller: Abelhas nasceram prontas

28 de dezembro de 2015


o mel nos favos



Abelhas sempre exerceram inexplicada atração sobre mim. Ainda menino, não raro permanecia absorto no pomar do vovô para admirar como, agraciadas pelo papel que a genética lhes reservou, iam de flor em flor para, em inconfundível aptidão, colher o que fosse néctar e pólen, fontes essenciais de sobrevivência de sua colméia.

Dia qualquer, estimulado pelo show de milhares mais tantos zumbidos, vi quando grosso enxame desprendido em vôo liberto à caça de um oco para nidificar grudou-se às folhas da caramboleira, formando cacho de atrativo odor cujo peso vergava o galho até quase o chão.

Corri extasiado até a tulha e, de posse de velho alqueire com que meu pai media café, esfreguei-o vigorosamente por inteiro, dentro e fora, com capim cidreira, impregnando-o de fragrância similar à do feromônio que elas exalam, de modo a atraí-las sem risco à casa que lhes oferecia.

Sem me agredir, aceitaram a nova morada e, já no dia seguinte, pude notar presas sob a tampa do alqueire várias protuberâncias de cera branca que davam forma aos primeiros favos, berçário e despensa de pólen e de mel. Meses depois, confinado em internato na paulicéia, eu soube por lacônica carta de minha mãe que a colméia enfurecida atacara galinhas, porcos, pessoas e tudo mais que se movia ou respirava. E que só pôde ser contida mediante uso de fogo.

Imaginar a calcinação da insólita agressividade daquele modo (...ato espiritualmente tão humano!) estimulou ainda mais meu fascínio por elas, a ponto de formar tempo depois pequeno apiário de dezoito colmeias, que deixei instalado à borda de uma reserva de mata, em fazenda que um amigo mantinha em Maricará, Cariacica/ES. 



Um novo modelo de caixa de abelha, que extrai o mel (*) 


Herdeiras de manipulação genética que lhes conferiu agressividade, isso me estimulou a concluir experiência de êxito promissor, de substituição gradativa das rainhas africanizadas por italianas de calma índole, mas de igual modo produtivas, geradas em laboratório pela Emcapa. Infelizmente, não foi possível consolidar resultados, já que alguém, por atributos e razões comuns ao gênero humano, borrifou o apiário com algum veneno, matando todas as colmeias.

Mesmo assim, aprendi muito com as abelhas. Mesmo africanizadas, e por isso donas de humor agressivo, foram anos a fio distração e passatempo de minha família que, em conluio comigo, passava domingos quase por inteiro na lida de colher mel e cuidar delas, sem se importar em ter que, eventualmente, remover ferrões cravados na pele.

Notei que elas são naturalmente atraídas pelo verde, pelo amarelo e pelo azul, cores preponderantes naquele meu apiário. O branco, que a elas causa nítida confusão, é estratégico. Por isso, é cor da roupa do apicultor que, assim vestido, estará menos visível ou exposto se ocorrer ataque quando abrir colméias para colher mel ou realizar procedimentos de manejo. Já tinha lido muito a respeito da aversão delas à cor preta, o que constatei como dolorida verdade que me levou ao pânico no dia em que elas deixaram meus sapatos crivados de ferrões.

Sob sol escaldante ou frio intenso, não importa, a temperatura no interior da colméia estará sempre regulada e mantida segundo o que atenda às necessidades de sobrevivência. Assim, se o calor for forte, adotam praxes extraordinárias, como o ininterrupto farfalhar das asas, o que produz ventilação; mas, se isto ainda for insuficiente, quantidades variáveis de operárias abandonam o interior da colmeia, aglomerando-se no exterior dela, num incrível movimento de desconcentração, até que o interior da casa esteja na temperatura ideal.

Se há florada nova no alcance de seu vôo, em raio médio de quatro quilômetros, as pesquisadoras de floração retornam pela manhã à colméia e, no fundo dela, exercitam ritual dançante georreferenciado, que fornece às demais operárias o endereço exato em que há nova fonte de mel e pólen. E jamais se confundem, como é comum entre os humanos.

Talvez por não ser aplicável ao mundo dos homens, onde a miséria degradante de infinitos matizes é livre e solta, especialmente um entre vários comportamentos das abelhas chamou minha atenção: elas eliminam todo indivíduo que oferece risco ou possa comprometer seu grupo, a sociedade delas, sua integridade e segurança. 

Dezenas de vezes pude observar absorto operárias que, em singelo voo, como em missão a caminho do absolutamente desejável, descartaram no ar, longe da colmeia, indivíduos doentes e, pois, indesejáveis, tidos como risco para os demais.

São assim porque, ao contrário de nós, elas já nascerem prontas.

(*) V eja aí, ó:
http://www.stylourbano.com.br/nova-caixa-de-abelha-que-extrai-automaticamente-o-mel/







Orlando Eller
Jornalista

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