Poesia todo dia - Hudson Ribeiro: Vivão e Vivendo / com crítica de Rubens Pontes

21 de junho de 2015
Por Oswaldo Oleari


Mandei os versos abaixo, do professor e poeta Hudson Ribeiro (foto), pro meu amigo, parceiro e mentor "intecquitual" Rubens Pontes. 

Sempre me inserí naquela categoria meia boca de "intelecquitual de butiquim".

Isto é, aquele suposto intelectual qui só fala bestaje (*) depois de 3 cervejas e outras 48 penúltimas saideiras.



(*) bestage ou bestaje 
- a sonoridade é a mema... 

Andra Valladares



Disse ao Rubens: 
- Meu caro, segue aí procê falar um tiquim e avaliar o poeta que descobri por acaso. 

Sempre tive um faro de cachorro, uma das ferramentas mais delicadas desse animal de protuberância traseira, que é mais elegante do que dizer animal de rabo, nememo? 

Niquiqui o cheiro é bom, tenho certeza que o trem é bom. Como sempre tive zouvidos dusbão, que sempre acusaram niquiqui o trem é porquera.

E foi assim. Vi alguns do meu até então poeta desconhecido, mas niquiqui bati os zóio em "Caminhada", pensei cá cos meu butão - quinemqui dizem os paulistas: purquequi o imbecil aqui não escreveu um trem desse, tão arrumado assim, tão bem dito assim? 

É uma tarefa pro nosso Super Rubens Pontes. Aí, a poesia. Lá embaixo, a seguir, a crítica do nosso Diretor de Conteúdo.

Vivão e Vivendo


Diógenes contemporâneo
Desacata os grandes
E exige soberano
Tanto o sol como a chuva
Tanto a tâmara como a uva
E sempre se pergunta
Se Adão tinha umbigo
E se Eva menstruava
Como o estabelecido.
Diógenes contemporâneo
Procura um ser humano
Nos interstícios do sistema
Ainda vivão vivendo vivo
Lutando por um osso maior
Sem haver se convencido
De esquecer do irmão
Após haver sobrevivido
À corrida de ratos
E seus rituais sinistros.
Diógenes contemporâneo
Traz arco-íris nos olhos
E sementes na cabeça
Para que ninguém se esqueça
De qual estirpe que somos
A vela sempre acesa
Brilha reluzente sobre a mesa
Onde é servida a grande refeição
Além do circo e do pão
Outras vidas se consumam
Feito o raio e o seu clarão
Iluminando a noite soturna.
(Hudson Ribeiro)

rubens silva pontes: 
- São assim as "descobertas"

Comenadador Don Oleari (*):

São assim as "descobertas", quer da penicilina, quer da poesia. A gente não descobre, nem uma, nem outra. Somos nós os surpreendidos, como foi Fleming, no passado, como agora foi você.


Quando jovem - e bota tempo nisso - li quase por acaso, da estante de um colega, poema de Fernando Pessoa. 

Tornei-me, a partir dai, tão "íntimo" do poeta que, se o encontrasse no Café Brasil, no Rocio, em Lisboa, poderia chamá-lo de você...

Hudson Ribeiro - leio o poema que você me enviou - parece ser poeta nato, instintivo.

Seu improvável pessimismo se reflete em alguns versos que, paradoxalmente,
são iluminados por uma luz (será que posso dizer?) quase visceral.

Eu me lembro do susto que levei ao ler pela primeira vez Augusto dos Anjos.



A amarga impressão com sua soturna colocação:

 - "Tome, doutor, essa
tesoura e corte minha singularíssima pessoa..." - foi substituída, quando
pude "penetrar" na mensagem do autor, de amarga crueldade para uma confissão de despedida...

Será certamente assim com Hudson Ribeiro, que merece ser situado no panteon dos melhores e mais sensíveis poetas capixabas. 

É preciso ler mais sobre o que ele escreveu, para melhor conhecer o homem, mais do que o intelectual. Só assim poderemos "entrar" no coração, e não
no cérebro, do autor que você me concedeu o privilégio de ler.



Afinal, ao contrário do prosador, poesia é mais introspectiva, requer mais sensibilidade, é mais voltada para "dentro" do que para fora (Rubens Pontes).

(*) Ele me chama de Comendador desde que a vereadora Neusa Glória prestou uma homenagem ao industrial João Santos Filho (ex-poderoso chefão do grupo do Cimento Nassau e do jornal A Tribuna, de Vitória/ES, entre outros títulos) e criou a Comenda João Santos. 



Leia mais Hudson Ribeiro aí, ó:

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