Poesia todo dia - Fernando Pessoa: Feliz Aniversário

14 de junho de 2015




Estátua de Fernando Pessoa, do escultor Lagoa Henriques, no café A Brasileira, no Chiado, Lisboa





O poeta português Fernando pessoa fez ontem 127 anos. Poeta múltiplo, tornou-se, na verdade, quatro poetas ao escrever através de seus heterônimos Ricardo Reis, Álvaro de Campos e Alberto Caeiro.

Fernando António Nogueira Pessoa nasceu em Lisboa em 13 de junho de 1888. Também De Lisboa, mandou-se para outras paragens em 30 de novembro de 1935. 

Fernando Pessoa é considerado o mais universal poeta português. O crítico literário Harold Bloom o classificou como um dos seus vinte e seis melhores escritores da civilização ocidental, nas literaturas portuguesa e inglesa.

O poeta americano Robert Hass disse, anaisando a obra de Fernando Pessoa que "outros modernistas como Yeats, Pound, Elliot, inventaram máscaras pelas quais falavam ocasionalmente. Pessoa inventava poetas inteiros". 

Sobre sua data de aniversário, Fernando Pessoa deixou este

Feliz Aniversário

No TEMPO em que festejavam o dia
dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era
uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha,
estava certa com uma religião
qualquer.
No TEMPO em que festejavam o dia
dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não
perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a
família,
E de não ter as esperanças que os
outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não
sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida,
perdera o sentido da vida.
Sim, o que fui de suposto a mim-
mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-
província,
O que fui de amarem-me e eu ser
menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só
hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia
dos meus anos!
O que eu sou hoje é como a
umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que
me amaram treme através das
minhas
lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a
casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-
mesmo como um fósforo frio...
No tempo em que festejavam o dia
dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa,
esse tempo!
Desejo físico da alma de se
encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para
mim...
Comer o passado como pão de
fome, sem tempo de manteiga nos
dentes!
Vejo tudo outra vez com uma nitidez
que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares,
com melhores desenhos na loiça,
com mais copos,
O aparador com muitas coisas —
doces, frutas o resto na sombra
debaixo do alçado —,
As tias velhas, os primos diferentes,
e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia
dos meus anos...
Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na
cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado
roubado na algibeira!...
O tempo em que festejavam o dia
dos meus anos!...

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