Alex Mendes: Liderança Musical de Pixinguinha

25 de abril de 2014
Na foto com o flautista e compostor, seu amigo Benedito Lacerda


Homem humilde e de gestos simples, considerado um dos maiores gênios da Música Brasileira, Pixinguinha jamais poderia imaginar que seria criado em sua homenagem o Dia Nacional do Choro, comemorado todo dia 23 de Abril, no dia de seu nascimento.

Quando tinha apenas 11 anos já tocava cavaquinho, pois os irmãos Léo e Henrique ensinaram algumas notas… Dó Maior, Sol Maior… era o final da primeira década de 1900.

O pai de Pixinguinha, que tocava flauta e era apaixonado pelo choro, promovia em sua residência encontros musicais, rodas de choros que eram frequentadas por grandes músicos que faziam parte de seu círculo de amizade.

Eram nomes como Irineu de Almeida, Candinho do Trombone, Viriato Figueira, Quincas Laranjeira, João Pernambuco, Sátiro Bilhar e até Villa Lobos participavam dos encontros na casa dos Vianna.

Pixinguinha já tirava algumas músicas de ouvido, mas na roda de choro ficava mesmo apreciando atentamente as músicas que eram tocadas, porém quando passava das oito horas, Alfredo da Rocha Vianna, o pai, dizia ao garoto;

– Vai dormir menino que já é tarde…”

Pixinguinha tinha que se retirar e ir para seu quarto. Mas ele gostava tanto do choro que não se deitava, ficava atrás da porta ouvindo.

No dia seguinte, com sua flauta, reproduzia as melodias que lembrava. Irineu de Almeida, que morava na casa dos Vianna, disse certa vez ouvindo Pixinguinha tocar:

–Esse menino promete!

E ele estava certo. Logo o garoto foi convidado para substituir o excelente flautista Antonio Maria Passos, e não parou mais. Participou de várias formações musicais atuando como solista. Uma delas foi no grupo Choro do Caxangá (1914) que tinha como violonista João Pernambuco.

Em 1919 Pixinguinha é convidado para montar um grupo para tocar na sala de espera do Cinema Palais. Ele convoca alguns músicos do Choro do Caxangá e cria o histórico Os Oito Batutas. O  grupo se tornou um sucesso, muitas pessoas se deslocavam ao cinema apenas para ouvir o grupo liderado por Pixinguinha, que ganhava fama e projeção.

Em 29 de Janeiro de 1922 Os Oito Batutas seguem para Paris, retornam ao Brasil meses depois e partem novamente para outra viagem, desta vez para a Argentina.

O grupo se desfez logo após o retorno desta segunda viagem internacional e Pixinguinha passa a trabalhar como solista, arranjador e orquestrador para revistas e gravadoras. Ele cria a Orquestra Diabos do Céu e o grupo da Velha Guarda e também e fica à frente da Orquestra Victor Brasileira.

Neste período Pixinguinha escreve, arregimenta músicos para gravações e faz regência. Historiadores apontam que Pixinguinha lança as bases para a orquestração da música brasileira, criando arranjos para grandes nomes da época como Mario Reis, Carmem Miranda, Francisco Alves, Ataulfo Alves, entre outros.

Ao observarmos este rico período de criatividade musical nos primeiros 30 anos do século XX, percebemos que Pixinguinha, além de exímio músico e arranjador, também atuava como um verdadeiro líder.

Realizou com a Orquestra Victor Brasileira, com o Grupo da Guarda Velha e com os Oito Batutas, dezenas de gravações, seguindo o estilo que aprendeu com os grandes mestres de banda como Anacleto de Medeiros e Irineu de Almeida, que foi seu professor.

Que outro líder conseguiria coordenar por tanto tempo uma equipe numerosa de músicos como o da Orquestra Victor Brasileira, entregando ao público o fantástico resultado que são as gravações que estão até hoje disponíveis?

Henrique Cazes aponta que “Pixinguinha até a morte não mudou sua maneira de orquestrar, dando a impressão de que no fundo de sua sincera modéstia sabia que escrevia para a eternidade”.

Pixinguinha conduzia os trabalhos musicais com bom gosto e competência, liderava como poucos, e uma das definições da palavra liderar é “inspirar, animar e motivar ideias, pessoas e projetos”. O líder, portanto, é aquele que inspira e dá vitalidade. Deste ponto, encontramos em Pixinguinha o perfil do líder servidor.

Sua postura e atitude contribuíram para que fosse admirado, e era uma admiração verdadeira, porque as pessoas que estavam ao seu lado acreditavam que ele estava sempre fazendo o melhor por saberem que era apaixonado pela arte.

Pixinguinha sabia intimamente que ser líder não é o mesmo que ser chefe. Chefe você obedece, líder você segue, o líder influencia as pessoas pela clareza de suas ideias e trato com as pessoas.

O poder da liderança de Pixinguinha estava na simplicidade de conduzir seus projetos, na sua habilidade em lidar com os músicos, na sua capacidade criativa de inovar sem deturpar, enfim na possibilidade de ir além do óbvio.


Jamais utilizou poder hierárquico de chefe de orquestra e líder de conjunto. Por isso, 41 anos depois de seu desaparecimento, continuamos seguindo o mestre. Continuamos sendo influenciado.

Alex Mendes (o bandolinista, primeiro à esquerda) do Conjunto Retratos

conjuntoretratos@terra.com.br

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